• Daniel Renattini

#6 - Papo com os Fantásticos - Tiago Boanerges


Olá, magos e seres oníricos! Estamos de volta com a sexta edição do Papo com os Fantásticos.


O entrevistado da vez foi Tiago Boanerges, um mago exorcista de Libertà. O papo foi regado a uísque, charme, lembranças e presenças inesperadas. Esqueci de colocar um blues pra tocar durante a entrevista, mas mesmo assim a conversa fluiu bastante e pude conhecer ainda mais sobre o Tiago. Essa você não pode perder.


Vem comigo!


Daniel Renattini: Como vai, senhor Boanerges? Ou posso chamá-lo apenas de Tiago?

Tiago: Por favor, só Tiago. Não tenho paciência para essas pseudo-hierarquias de honradez. Como costumam dizer aqui no reflexo de vocês, o senhor está no céu. Seja lá o que isso signifique.


D: Aceita uma bebida? Refrigerante, vodka, vinho? Ou só água mesmo?

T: Uísque, de preferência Bourbon. Mas se não tiver aí nesse seu bar improvisado, tenho uma garrafinha no meu bolso para situações de emergência.


D: Bom, então você é um mago exorcista como profissão. Conte-nos um pouco sobre sua trajetória e sua experiência. Mas se quiser omitir alguma parte que seja... dolorosa de contar, não há problema.

T: Bem, acho que sou mais conhecido pelo tempo em que trabalhei no Conselho de Hórus, a polícia de Libertà que lida com assuntos sobrenaturais. Eu atuava no setor de inteligência, identificando oníricos vindos sem autorização do mundo dos sonhos para nossa cidade e mandando-os de volta com uma bela exorcizada... Oníricos têm o péssimo hábito de possuir pessoas, nem sempre de comum acordo... Mas agora que Libertà abriu suas fronteiras de vez por causa da guerra, esse setor do Conselho foi desativado. Ainda bem que eu não dependia mais desse emprego.

Depois, é claro, houve meu deslize ao tentar exorcizar uma musa...

Sabe, o problema de lidar com musas é que elas podem inspirar você a fazer o que quiserem e você só percebe que a intenção não era sua quando já é tarde demais. Mas isso é parte do passado. Pelo menos se os boatos que ouvi sobre o reflexo de vocês não se confirmarem. O tempo dirá.


D: Você tem uma aprendiz chamada Julia Yagami, certo? Como é a experiência de ter uma aluna como ela? Você a vê como uma sucessora, além de, imagino, uma amiga?

T: Olha, difícil saber quem aprende mais com quem nessa relação. Para ser sincero, a Julia deixou de ser minha pupila faz uns anos, embora ainda frequente minha casa e viva colocando as botas em cima do sofá.

A Julia não é uma exorcista como eu, é uma necromante, o que de onde eu venho possui um significado um pouco diferente do que estão acostumados nesse seu reflexo esquisito. Quando ela conseguiu dominar o poder dela e atingiu um ponto perfeito de concentração, achamos melhor que ela procurasse alguém da mesma linha de magia para continuar o treinamento. Não sei se ela fez a escolha mais adequada indo ter aula com aquele asno desqualificado da faculdade de ocultismo, mas prometi que não implicaria com seus novos orientadores.


D: Percebi que você trouxe uma garrafa aí e tem um boneco dentro. Impressão minha ou ele tá se mexendo? É o Marafo, não é? Não acredito que estou vendo de perto.

T: Errr... Perto demais para a sua segurança, eu diria. Dá um espacinho aqui, dá... isso, muito bem. Por mais que eu goste desse pestinha, ele é muito traiçoeiro e a gente nunca sabe se ele vai... como dizer... arrancar o olho de alguém. Mas pelo menos nesse reflexo ele tem ficado calado, o que já é um alívio para os meus ouvidos.


D: Pode nos falar um pouco sobre a sua relação com o Marafo?

T: Você deve ter ouvido falar do Entremundos, logicamente. A região fronteiriça entre todas as realidades... Ou reflexos, como nós magos preferimos chamá-las. Certa vez, eu estava voltando de férias do seu reflexo, tinha vindo para um festival de música, e encontrei essa garrafa esquisita em uma lojinha de quinquilharias usadas bem na fronteira. Para minha surpresa, quando voltei para casa e derramei sem querer um gole de uísque na garrafa, o Marafo começou a falar. Apesar de tentar me matar de vez em quando, eu diria que ele é uma ótima companhia.


D: Tem uma fumaça entrando aqui... cof cof cof. Ah, espera aí! É o Ori, não é? Caramba, queria muito vê-lo também.

Para você, que está lendo esta entrevista, Ori é o gato de Tiago. Na verdade, Ori é um ser onírico.

Tiago, pode nos explicar mais sobre esse bichano simpático?

T: Olha, eu bem que queria saber explicar. O Ori é um efrite, um ser onírico de fumaça, e apareceu na minha casa do nada... Por muito tempo achei que ele estivesse preso a ela, até, só para me atormentar e me lembrar dos meus erros no caso da musa de Libertà, mas depois que eu despachei a musa, ele começou a sair para a rua comigo. Meu médico acha que ele está conectado ao meu coração de fumaça, como se eu o levasse para passear numa coleira. Hum... pensando bem, prefiro cortar essa parte do coração de fumaça da entrevista... Assunto delicado.


D: O que você mais admira em Libertà?

T: Atualmente, o que mais gosto da minha cidade natal é a distância. A distância entre mim e ela, para ser mais exato. Por isso vim para cá. Mas comparando com esse reflexo de vocês com presidente doidivanas e fundamentalista, Libertà tem suas vantagens. Lá ninguém passaria o ridículo de dizer que azul é só para meninos e rosa só para meninas. Nem perseguiria professores e artistas, que lá são tratados com respeito e levados a sério. Arte, liberdade e conhecimento são valores fundamentais para os libertinos.

Isso não quer dizer que não tenhamos nossos preconceitos, é claro. Pessoas com traços animais nem sempre são bem-vistas e, bem, se você for um onírico... Digamos que nossa relação com o mundo dos sonhos ainda é complicada.


D: Para fecharmos a entrevista, tenho uma pergunta bem filosófica pra você. Qual é a maior beleza da vida?

T: Eu e você na minha cama ouvindo um bom vinil de blues.


(Fiquei sem jeito nessa parte)


D: Tiago, agradeço muito pela entrevista. Espero que possa nos visitar novamente em algum momento. Ou tente nos mandar um postal de Libertà quando puder.

T: Obrigado pelo convite. Apesar de ainda não ter entendido como descobriu que eu estava no seu reflexo, foi um prazer falar com você. Se minha vida seguir de acordo com os planos pelo menos uma vez nessa maldita existência, em breve meus postais terão o carimbo do Rio de Janeiro. Nos vemos por lá.

Se quiserem conhecer mais sobre o Tiago e a cidade de Libertà, podem conferir nos livros Exorcismos, amores e uma dose de blues e Neon Azul (escritos por Eric Novello).

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