• Daniel Renattini

#1 - Papo com os Fantásticos - Tito Agnelli


Olá! Seja bem-vindo ou bem-vinda ao Papo com os Fantásticos, uma coluna composta de entrevistas nada normais.


O objetivo é publicar semanal ou quinzenalmente uma entrevista com personagens da literatura fantástica nacional. Ou seja, podem esperar de tudo aqui. Tudo mesmo!


O local da entrevista é totalmente secreto e seguro ao entrevistador (no caso, eu) e aos entrevistados. Portanto, qualquer personagem fantástico é bem-vindo e não sofrerá qualquer tipo de assédio ou julgamento.


Agora, vamos ao primeiro entrevistado?


Tito Agnelli é um imigrante italiano, visto em Lobo de Rua. Ah, ele é um lobisomem. Mas não se assustem, a entrevista foi super tranquila e ninguém saiu ferido. O Brasil que eu quero é um país com mais lobos iguais ao Tito.


Daniel Renattini: Tutto bene, Tito? Hoje não é noite de lua cheia, é?

Tito: Ah, ragazzo... se fosse noite de lua cheia eu jamais estaria aqui. Recomendaria que você estivesse o mais longe possível de mim, inclusive. Há tempos eu não saio da dieta, mas não dá pra bobear, capisce? Caetano Estrada que o diga...


D: Bom, soube que você tem mais de cem anos. Na época em que você se transformou pela primeira vez, o termo “lobisomem” já era conhecido?

T: Mais de cem? (Risos) Quase cento e cinquenta. Cento e trinta e tantos só de lobo solto, o que dá mais de mil e quinhentas luas. (Pausa. Esfrega o rosto.) Sobre o termo... olha, eu não faço a mais puta ideia. Provavelmente a palavra já existia, como já existia lupo mannaro, mas eu estava preocupado demais com o que acontecia todas os meses pra me dar ao trabalho de acatar mais um rótulo. Eu já era “o imigrante”, “o fodido”, “o adúltero”. E, dentro da minha própria cabeça, eu sabia que eu era também “o monstro”. Mas não demorou muito pra que começasse a correr à boca pequena as histórias do “lobisomem da Lapa”. Foi a primeira vez que ouvi o termo. Foi a primeira vez, de muitas, que me senti forçado a me mudar de onde morava. Ou melhor, a segunda.


D: Como foram os primeiros anos se adaptando a esse novo Tito, que podia devorar seres humanos?

T: Vou te dizer a verdade, filho: nos primeiros meses, a transformação é quase... libertadora. (Suspiro). Você nunca sentiu vontade de ter a força pra acabar com uma injustiça? Pra dar uma lição pra “quem merece”? No começo, o bicho se apodera de você quando a lua chega e você assiste tudo de camarote, como se não tivesse nada a ver, como se não tivesse nenhuma responsabilidade. Ninguém te conta, ragazzo, mas o que existe aqui dentro da sua cabeça interfere nas escolhas da criatura: o sangue dos seus desafetos cheira muito melhor do que o sangue dos inocentes — que só entram na berlinda se derem o azar de estar no caminho. Mas, conforme o tempo passa, você descobre que você é o lobo e o lobo é você. Vocês são dois lados da mesma moeda. Quando você entende isso, entende porque essa merda é uma maldição. (Pausa). Mas, na prática, o difícil de se acostumar à licantropia é sentir os cheiros, ouvir as mentes, mergulhar de cabeça na versão concentrada dessa insanidade que é a humanidade.


D: Qual foi o dia em que mais sentiu medo na vida? E alívio?

T: Senti muito medo quando fui ter com os Coronéis da Lua, que dominam os arredores de Manaus e torturam com prata quente os lupinos que não aceitam entrar para milícia suja deles. Não temi por mim, mas pelo que eu poderia ver. E realmente vi muitas coisas terríveis, mais do que gostaria de ter visto. Não me arrependo porque as conversas foram frutíferas e acho que evitei muitos outros males, mas nunca mais fui o mesmo. E o alívio eu boto na conta do dia em que Nico Trovatelli e sua alcateia torta me salvou de uma boa confusão — que, por si, dá uma história inteira, capisce?


D: Provavelmente alguns que estão lendo esta entrevista não sabem, mas os lobisomens da sua... dimensão, digamos assim... não viram lobisomens por meio de mordida ou arranhão. Pode nos explicar mais a respeito?

T: Esta maldição infeliz é sexualmente transmissível — como só fui aprender muito tempo depois da minha primeira transformação. Não é todo contaminado que é acometido pela licantropia, porém: é como se o sujeito tivesse que ter um botão dentro de si pra deixar o lobo sair. Por muitos anos se pensou que só os nascidos homens podiam chegar às vias de fato, mas recentemente descobri que não. Alguns acreditam em mutação do que quer que seja que causa esta merda, outros dizem que as mulheres lupinas sempre estiveram por aí, mas nós machos — pra variar — ignoramos a existência delas. Enfim. Recomendo, para quem quiser saber mais, a incrível “La Petite Encyclopédie de la Maladie Lupine”, escrita pelo monsieur Louis Vandard, o famigerado loup-garou du Corse. Isso para quem tem acesso à literatura alternativa, é claro.


D: É verdade que o senhor já teve um romance com uma maga? Como foi essa época de sua vida, tendo que lidar com a própria transformação e a paixão por uma maga?

T: (Risos) Ora, cazzo, tá se achando quem, a porra de um repórter da Caras? (Pausa, olhar distante). Sim, eu já me envolvi com uma maga, a melhor delas. Talvez para compensar a minha maldição, posso dizer que fui agraciado com a sorte de amar e ser amado por muitos ao longo dos anos. Mulheres, magas, homens, outros lobisomens, feéricos, oníricos, pessoas incríveis que não cabem em classificações tão mundanas e mesquinhas. Foi com o panfleto da Josefa, uma das pessoas que mais admiro nesse mundo, que descobri que o futuro inclusive reservaria um nome para aqueles que, como nós, amam e se envolvem sem se preocupar com os rótulos.


D: É possível que Josefa também esteja carregando a DST do lobisomem após ter se relacionado com o senhor?

T: Não, impossível. Josefa tem uma maldição muito maior que a da licantropia, por isso é imune a todas as outras. Mas, mesmo que estivesse, o que se fala nos congressos lupinos é que o portador — com ou sem a licantropia expressa — pode viver uma vida completamente normal, contanto que se proteja — como qualquer outro humano, aliás — e se mantenha recluso nas noites de lua cheia.


D: O senhor pensa em ter filhos?

T: Não. (Nega com a cabeça, veementemente). Mas, mesmo que pensasse, isso não é possível, sciocco. Gente como eu pode até gerar filhos, mas eles ficam no meio do caminho entre filhote de homem e de lobo e, feliz ou infelizmente, não sobrevivem além do primeiro suspiro. Eu vi com os meus próprios olhos... (Pausa, olhar distante). De qualquer forma, a vida me trouxe muitos filhos sem qualquer laço de sangue — e levou alguns também. Espero que me traga outros... sinto saudades dos que já se foram.


D: Qual o seu principal objetivo de vida? Já pensou em virar político ou algo do gênero?

T: Político? (Risos). Só vou pra Brasília se for para participar de um banquete especial na noite de lua cheia, se é que você me entende. Se bem que carne de embuste dá uma baita indigestão... melhor deixar pra lá. Quanto ao meu objetivo de vida: me contento com pouco, filho. Espero continuar conhecendo os lugares, fazendo boa arte, comendo boa comida... Sem trocadilho nenhum aqui, la vita è troppo corta per mangiare male! Nada grandioso — a menos que as circunstâncias da vida me convoquem pra uma grande batalha. Se o Brasil precisar de mim nos próximos anos, inclusive, acho que posso ser de grande valia.


D: Ouvi dizer que há um lugar que o senhor frequenta, chamado Galeria Creta. Pode nos contar mais a respeito desse lugar? Deixo bem claro que os responsáveis pelo local não saberão da sua entrevista.

T: Ah, ragazzo... os responsáveis pela Galeria Creta sempre, sempre sabem. Mas dane-se, que eu não sou homem de ter medo de touro. Eu poderia contar muitas coisas a respeito da Galeria, mas basta que os seus leitores saibam de uma única coisa: nunca vale a pena. Nunca. Não façam como eu, não se embrenhem nesse labirinto. Felizmente, alternativas de abrigo e acolhimento parecem estar aparecendo por São Paulo e outras cidades. Meu plano é me livrar dessa praga em no máximo uns cinquenta anos.


D: Senhor Tito, grazzie pela entrevista. Espero visitá-lo na Galeria Creta um dia.

T: Eu que agradeço, menino. Espero vê-lo de novo, mas de preferência longe dos domínios do Minotauro. Agora, que estou voltando a São Paulo com mais frequência, não vai ser difícil. Inclusive, de vez em quando apareço nos eventos e lançamentos de livros, que muito me agradam, mas prefiro ficar incógnito. Quem sabe, da próxima vez, tomo coragem e me apresento?

Se quiserem conhecer mais sobre o Tito, Lobo de Rua (escrito por Janayna Bianchi) está disponível na Amazon neste link.

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